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Quarta-feira, 10.03.2010 - 04:41 (GMT)
  Braga     Editorial     Entrevista  

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Entrevista
“Braga está um caos urbanístico”
Sexta-feira, 13.11.2009 - 02:26

“Vão-se fazendo pequenas ruas e loteamentos, 'plantam-se' casas aqui e acolá, mas tudo isto de um modo bastante desorganizado. Não existe unidade em termos territoriais. É tudo sempre construído aos bocados e Braga é hoje uma 'manta de retalhos'.”


Como está Braga em termos urbanístico?

Está um caos em termos urbanístico. Parece não existir um plano, nem nunca ter havido. Nunca ter havido estratégias de definição de áreas de áreas a construir e áreas a preservar. Há um crescimento desordenado que parece ser movido por outros interesses, que não os do ordenamento do território. Lamaçães por exemplo, poderia ser ter sido construída segundo um modelo diferente. Em vez de ser uma zona atrofiada de construção, poderiam ter sido criados espaços verdes de qualidade e equipamentos à altura para a população que ali se fixou. A densidade construtiva e a falta desses equipamentos leva a uma desvalorização dos imóveis que ali se encontram. Há muito tempo que há muita gente a pensar e a fazer cidade. Lamaçães, como “folha em branco” que era, podia ter sido desenhada de raiz contemplando as tais zonas de lazer e até a ciclovia! É só olhar para o lado e seguir esses bons exemplos.

 

Na sua opinião, Lamaçães é um exemplo dessas 'manchas' no concelho. Há outras?

Sim. Temos Gualtar, pela sua desorganização e heterogeneidade em termos de volumetria e linguagem arquitectónica. Temos também em Real, a zona de Montélios, onde vemos prédios inacabados, escavações outrora destinadas a fundações de edifícios, e que hoje são enormes poças de água e mato. Para além disto, a deficiente vedação destes buracos, constitui um perigo para quem lá passa.

Em Nogueira, temos uma 'mancha', não em altura mas em desorganização territorial. Vão-se fazendo pequenas ruas e loteamentos, 'plantam-se' casas aqui e acolá, mas tudo isto de um modo bastante desorganizado. Não existe unidade em termos territoriais. É tudo sempre construído aos bocados e Braga é hoje uma 'manta de retalhos'.

 

E quanto ao Campo da Vinha?

O Campo da Vinha foi alvo de uma remodelação desastrosa. Passou de uma zona arejada com árvores, e que era uma zona de estar da cidade, para uma praça inóspita, reduzida à esplanada do café e do restaurante. O mobiliário urbano colocado é igualmente frio e pouco convidativo, é raro ver-se lá alguém parado. As praças foram feitas para as pessoas. Para serem usadas e ser vivido o espaço, para se estar lá. Uma praça é um espaço livre público cuja função principal é o lazer, nunca pode ser feita em degraus e ter várias direcções. Torna-se confuso para os transeuntes. Inconscientemente acabam por andar perifericamente à praça sem nunca entrarem nela. Uma praça não pode ser idealizada com elementos que impeçam o seu atravessamento físico ou visual. O edifício construído quebrou o espaço em duas partes eliminando a leitura do Campo da Vinha como uma única praça.

 

As lojas do Campo da Vinha estão hoje praticamente todas encerradas. Resta apenas uma dependência bancária, um café e um espaço de internet. Este cenário poderá ter sido originado por essa “quebra”?

Sim. Fizeram-se lojas num corredor, estão ali 'enterradas'. As pessoas não as notam e as que continuam a vingar são as das pontas do corredor que beneficiam da saída do parque de estacionamento e de alguma visibilidade. O facto de as pessoas não entrarem na Praça faz que com que este comércio esteja isolado, quase como se fossem uma ilha. A própria ligação para a rua em frente ao Conde de Agrolongo é feita por uma passagem por cima destas lojas. Nem os poucos percursos/atravessamentos desenhados tiveram em atenção as necessidades destes espaços.

 

Como está o Centro Histórico de Braga?

É uma pena a quantidade de edifícios que neste momento estão fechados, devolutos e em contínua degradação. Não se pode pensar no crescimento da cidade sem primeiro tomar conta do seu núcleo. Enquanto houver um desprezo e negligência pelo património edificado e enquanto não houver um incentivo às actividades económicas no Centro Histórico, vamos ter sempre uma cidade a morrer por dentro.

É preciso, mais uma vez, olhar para o que de bom se tem feito noutros lugares. Aprender e importar os exemplos de sucesso de reconstrução e dinamização de zonas históricas. Não é preciso ir muito longe. Guimarães soube aproveitar fundos comunitários e a própria Câmara vimaranense incentivou os comerciantes e residentes a investir na recuperação do património e continuarem lá. Guimarães irá ser Capital Europeia da Cultura em 2012 e isso não sucede por acaso.

 

A taxa a pagar para aceder ao Plano Director Municipal (PDM) contribui para o cenário que traça?

De um modo geral, as taxas municipais são muito elevadas. Um gabinete que seja composto por um ou dois arquitectos não tem capacidade financeira, não pode, sem mais nem menos, pagar cerca de 300 euros por um CD que contém uma informação que é de todos nós. Todos pagámos para que o PDM fosse elaborado. Todos nós já pagamos para que esses dados sejam tratados e, portanto, eles devem ser disponibilizados na Câmara. Uma coisa é trabalharmos sobre uma fotocópia do PDM e outra é termos o mesmo plano em suporte digital, sobre o qual se poderia trabalhar com muito mais rigor.

Penso mesmo que todos os bracarenses deveriam pronunciar-se sobre esta questão das taxas municipais, visto estar a decorrer o período de discussão pública. Agora é a altura ideal para apresentar sugestões. Cada munícipe pode faze-lo através do site da coligação Juntos por Braga ou pode, pessoalmente, dirigir-se à Câmara Municipal de Braga e falar connosco nos dias de atendimento.

 

Bom Jesus “tem um 'cancro' a trepar”

 

Braga tem betão a mais?

Quando as pessoas se referem ao betão, referem-se à construção a mais, e é verdade. Basta andar pelas ruas e ver os letreiros nas janelas a dizer “Vende-se” durante anos seguidos. Não há compradores para tanta oferta. Mesmo assim, o preço dos imóveis não tem descido tanto como seria de esperar.

Braga é hoje das cidades que tem mais habitação disponível e ao mais baixo custo. Não há compradores para tanta oferta. De um modo geral, essa habitação peca em termos de qualidade. Muita gente se queixa de, por exemplo, ouvir o vizinho de cima a bater a porta ou a arrastar qualquer coisa pelo chão. Ouvimos muitas vezes queixas de infiltrações e falta de conforto térmico. As normas construtivas, e elas existem, não têm sido aplicadas em todos os casos ou estas situações seriam bem menos frequentes.

 

Há falta de espaços verdes no concelho?

Sim, principalmente na cidade. Um separador de vias, porque está relvado, ou as árvores que ladeiam algumas das nossas ruas, não são espaços verdes, quando muito, canteiros e caldeiras.

Entende-se por área verde um espaço onde há o predomínio da vegetação arbórea, englobando as praças, os jardins públicos e os parques urbanos. Para se fazer um Parque Eco-Monumental é preciso ver o que se faz por essa Europa fora. Falta-nos um Parque da Cidade e a única zona que actualmente se aproxima desse conceito é o monte do Bom Jesus. No entanto, muito do que era até há bem pouco tempo reserva está a deixar de o ser. O que está ali a suceder é quase como se fosse um 'cancro' que vai trepando monte acima. Outros interesses sobrepõem-se à natureza e as áreas verdes vão sendo destruídas.

Uma vez mais, Guimarães torna-se exemplo neste aspecto, mas agora com o Parque da Cidade. Havia ali uma zona apetecível para construção, mas o Município optou por proporcionar à cidade um espaço com qualidade.

 

Theatro Circo continua “orgulhosamente só”

 

Que análise faz do edifício onde se encontra o Parque de Exposições de Braga (PEB)?

Infelizmente, para muitos o PEB é hoje apenas a entrada para a Feira Semanal.

Pela escala que tem, pelos materiais que tem, torna-se um edifício gelado em termos visuais e físicos. Entramos lá e é impossível tirar o casaco. O auditório tem excelentes condições, mas está integrado num edifício paupérrimo. Numa Feira do Livro, por exemplo, é ensurdecedor lá estar. Aquele espaço ecoa por todo o lado. É muito mau em termos acústicos. Mesmo a feira tem perdido vendedores e público pela falta de condições e de investimento que proporcionem um local condigno para que este evento semanal aconteça.

 

E quanto ao Theatro Circo?

É uma pena que com o investimento feito não se consiga atrair mais público para os diferentes espectáculos. Seria necessária uma política de preços e de cartaz mais atractiva. Claro que existem espectáculos com bilhetes a um preço mais baixo (entre 5 e 10 euros), mas que não conseguem cativar público. O Theatro Circo devia seguir o exemplo de espaços como o da Velha-a-branca e do Pedro Remy. Este último consegue pôr mais gente a ouvir jazz do que o próprio Theatro Circo.

 

Considera, portanto, que o Theatro Circo não está a ser rentabilizado como deveria ser. Braga tem necessidade de um Centro Cultural?

Tem, e muita. Isso era até uma das propostas da coligação Juntos por Braga. O problema aqui é que não há estratégias. O Theatro Circo, por si só, não é suficiente. Não consegue criar uma dinâmica cultural. Deveria estar integrado e interagir numa rede cultural que não existe.

Um Centro Cultural não invalida que os outros projectos funcionem. Pelo contrário, tem é de existir uma articulação entre todos. Isso não acontece e o Theatro Circo continua orgulhosamente só.

 

Não existe “cultura de debate” na Câmara

 

Estreou-se como vereadora na Câmara Municipal de Braga na reunião do passado dia 29 de Outubro. Como correu essa estreia?

Penso que as reuniões de Câmara poderiam ter mais utilidade. Não existe uma cultura política de debate. Há lugar para uma opinião que, infelizmente, acaba por não contar. É sempre infrutífera pois não há diálogo. Não há debate, porque ali o debate parece não interessar à maioria socialista. Parece que tudo é feito para durar o mínimo tempo possível.

Mesmo que votemos contra alguma das propostas, de nada adianta. A maioria está lá, eleita democraticamente. A única coisa que podemos fazer, e fazemos, é marcar a nossa posição nas conferências de imprensa, com o sentido de dar a conhecer à população que votámos contra ou favoravelmente por este ou por aquele motivo.

 

O que pensa das instalações destinadas à coligação Juntos por Braga na Câmara Municipal de Braga?

Não temos um local com condições para trabalhar e para atender os munícipes. Neste momento, temos uma mesa e um computador bastante antigo. Estamos instalados numa sala com cerca de 50 metros quadrados, subdividida por biombos em três divisões: metade da sala é ocupada pelas duas secretárias da presidência; um quarto de sala pelo motorista do presidente da Câmara; no outro quarto de sala estamos nós.

Ora, é natural que as pessoas, ao ser atendidas por nós, exijam uma certa privacidade e isto não se verifica. Continuamos a atender lá mas já tivemos casos de pessoas que não querem falar connosco na Câmara devido a essa falta de privacidade. Somos obrigados a atender essas pessoas em locais previamente combinados.

 

Mulheres “são mais organizadas”

 

O que é hoje ser mulher na política?

Como em todas as áreas e reflexo das contínuas transformações sociais, as mulheres têm vindo a assumir cargos anteriormente exclusivos dos homens. A política continua a ser dominada por homens mas estou convicta que, daqui a uns anos, a lei da paridade vai ser aplicada ao contrário: vamos ter de ter um número mínimo de homens em cada lista.

Penso que, na generalidade, as mulheres têm uma grande capacidade organizativa e espírito de liderança. As mulheres quando abraçam um projecto levam-no até ao final sem se deixarem “distrair” facilmente por factos.

 

PERFIL

 

Ana Leonor Pizarro Bravo da Silva Pereira, arquitecta, cumpriu toda a sua escolaridade em Braga. Em 1993 ingressa na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Concluiu o curso em 1999 e o seu interesse pela área profissional que escolheu levou-a a enveredar por inúmeras formações complementares.

O seu trabalho está espelhado nas dezenas de projectos já concretizados. Obras públicas e privadas com as mais diversas finalidades, nos mais diversos locais do país assim como em Angola, atestam o trabalho da arquitecta. A este respeito merecem especial destaque os projectos das Unidades de Saúde Familiar de Braga (USF Bracara Augusta) e Vila Verde (USF Pró Saúde e USF Vida Mais) que elaborou.

Além desta vertente, Leonor Pizarro leccionou ainda as cadeiras de Geometria Descritiva, Fotografia, Educação Visual, na Escola Secundária Alcaides de Faria, em Barcelos e Geometria Descritiva e Educação Tecnológica em Braga.


AUTOR: o balcão
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